quarta-feira, 6 de junho de 2012

Brinquedos e Brincadeiras: Música e ludicidade

Professores:


Francisco Marques (Chico dos bonecos)


e


Estêvão Marques

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Vídeos:


AULA 1 e 2




AULA 3




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Durante estes três encontros que tivemos na matéria: Brinquedos e brincadeiras: música e ludicidade do curso de Pós-graduação em Educação Musical tive a oportunidade de vivenciar experiências maravilhosas!
Ao refletir sobre estas experiências e sobre a escolha da coordenadora do curso e da própria faculdade em inserir esta matéria em um curso de pós-graduação em Educação musical é preciso questionar quais devem ser os objetivos com esta escolha.
Para que serve o brincar? Para que serve o lúdico no ensino de música? Será que, realmente, precisamos estudar e aprender a brincar? Para que? Por que?
Não apenas o sistema de ensino fundamental (1º ao 9º ano) mas também o ensino formal de música é carregado de estereótipos, convenções, paradigmas e tradições.
Eu não acredito mais que o sistema tradicional de educação funcione em uma sociedade contemporânea como a nossa. É praticamente impossível pensar que o professor de música vai entrar em uma sala de aula com cerca de 40 alunos, durante 50 minutos, e vai fazer com que estes tenham interesse em aprender a ler uma partitura e fazer um solfejo de maneira tradicional.
O professor de música hoje (não só de música, mas qualquer professor) precisa despertar na criança o prazer em aprender música, o prazer em descobrir, conhecer, fazer, respeitar e valorizar o novo, o conhecimento. Como é possível fazer isso? É aí que a ludicidade e os jogos tornam-se fortes aliados deste professor. De acordo com Rocha (2000, p.66) “A atividade lúdica é assim, uma das formas pelas quais a criança se apropria do mundo, e pela qual o mundo humano penetra em seu processo de constituição enquanto sujeito histórico.”
Ao falar sobre a ludicidade Figo (2006,p.13, apud Huizinga, 1971) diz que “O ser humano é um ser essencialmente lúdico.” 
A criança representa uma coisa diferente, ou mais bela, ou mais nobre, ou mais perigosa do que habitualmente é. Finge ser um príncipe, um papai, uma bruxa malvada ou um tigre. A criança fica literalmente “transportada” de prazer, superando-se a sí mesma a tal ponto que quase chega a acreditar que realmente é esta ou aquela coisa, sem contudo perder inteiramente o sentido da “realidade habitual”. Mais do que uma realidade falsa sua representação é a realização de uma aparência: é “imaginação”, no sentido original do termo. (HUIZINGA,1971,p.16-17, grifos do autor)

O espaço que a criança tem para expressar sua criatividade na escola e em sua própria família é escasso, a todo tempo existe alguém que as reprime, que as proibe de criar, que as limita.
Querem que a criança tenha imaginação, seja criativa. Mas a imaginação deve ser contida, dominada para levar a criança ao estado adulto, os valores na escola são o real, a razão. (POSTIC, 1993, p.24)
[...] a criança precisa viver o lúdico, vivenciar situações imaginárias, pois desta forma ela está vivendo o hoje. O agora. Sem a tão comum preocupação em preparar a criança para ocupar um lugar na sociedade capitalista, como se tudo o que a criança vivesse nesta fase da vida não tivesse importância. (MARCELLINO, 1986, apud APPOLINÁRIO, 2000, p.20)

O professor e a escola tem como obrigação promover um espaço lúdico e livre, em que a criança possa se expressar, aprenda a ouvir e seja ouvida, desenvolva o diálogo, o respeito, a criatividade e a imaginação, se desenvolva como ser integral e participativo. O espaço destinado á contação de histórias e ás aulas de educação musical deve ser um espaço assim!

 As crianças produzem as culturas infantis, entre elas, no mundo dos adultos. Quais são as condições de produção dessas culturas infantis? O que eu promovo para as crianças, entre elas- parafraseando Malaguzzi-, construírem um mundo diferente do que já existe? O que eu estou colocando à disposição das crianças para elas pensarem a música, o som, a dança? Agora esta provocação vai nesta direção: o que nós, como professoras, vamos colocar a disposição das crianças para que elas leiam o mundo, inventem o mundo. A ideia é de que, quando for para o papel, não se tire a tridimensionalidade do que está fora do papel, a alegria, o movimento. (FARIA,2005,p.138)

Por meio destes encontros aprendi inúmeros jogos, brincadeiras, fiz brinquedos e brinquei, dancei, toquei, ouvi histórias, sorri e me diverti muito! Tenho certeza de que, ao utilizar estes aprendizados em minhas aulas, vou permitir com que o universo da criança realmente faça parte do espaço sala-aula-escola, afinal, é muito bom aprender, e aprender brincando é muito mais divertido!
Uma das recordações que guardo de minha infância é a de minha mãe contando histórias para mim e meus irmãos; lembro-me de como ficava entusiasmada ao escolher o livro e me deliciar, um pouquinho por dia, com histórias incríveis. Sempre tive livros em casa e brincar com eles era uma de minhas maiores diversões. Creio que isto seja um dos principais motivos, se não o principal, de eu ter me tornado uma pessoa que ama livros, que ama ler, contar e ouvir histórias.
               A contação de histórias pode ser uma ferramenta que, por meio da brincadeira e do lúdico, desenvolve nas crianças a comunicação, o vocabulário, a escrita e a oralidade, o interesse pela leitura, a expansão cultural, o estudo de gêneros literários, o convívio social, a expressão, a narrativa, a imaginação e a criatividade, além do gosto pela leitura, e, quando utilizada como uma ferramenta no ensino musical, traz o lúdico para as aulas de música, porém, o professor precisa ter claro que apenas o ato de contar histórias não alcança tais objetivos, é preciso estar preparado, estudar a literatura infantil e a história a ser contada, desenvolver técnicas para prender a atenção das crianças durante a contação e possibilitar que a história seja o início de diversas outras atividades que contribuirão para a formação integral da criança. Para isso é preciso que o professor reconheça a importância dessa tradição oral, pesquise, estude, prepare o ambiente e esteja preparado para contar histórias.
Um professor que conscientemente utiliza a contação de histórias deve ter claro que, assim como defende Coelho (1996, p.59) “a história não acaba quando chega ao fim. Ela permanece na mente da criança, que incorpora como um alimento de sua imaginação criadora”, o fim de uma história é na verdade, o começo de uma série de outros trabalhos.
A linguagem musical também pode ser utilizada durante uma contação de histórias, de acordo com Barreto (2003, p.4) “Uma história pode ser contada ou cantada, ou ainda contada e cantada.” É preciso que o contador atraia a atenção das crianças, para isso ele pode se utilizar de diferentes artifícios, desde fantoches, bonecos, tecidos, objetos, fantasias, brinquedos, ilustrações, até a música, e esta, em especial, traz grande encantamento aos pequeninos. É possível utilizar músicas que falem dos personagens das histórias durante a contação, cantar músicas ou tocar instrumentos regionais que tragam a atmosfera da história, o cenário onde a história acontece, utilizar instrumentos musicais para fazer a sonoplastia da história (inclusive pode-se distribuir os instrumentos às crianças para estas realizarem a sonoplastia, participando ativamente da contação e não apenas ouvindo). Outra atividade possível é propor que as crianças desenvolvam composições baseadas na história que acabaram de ouvir. A escolha das histórias e do repertório musical são muito importantes pois esta escolha permite com que apresentemos ás crianças um universo cultural que não é divulgado pelos veículos de massa, promovendo grande expansão cultural.

A respeito das culturas Almeida (2001) defende que as artes são as principais ferramentas que o professor tem para desenvolver em seus alunos uma formação mais sensível e completa:

É necessário entender que as culturas não são apenas produtos, mas também instituintes da esfera sociocultural; que as sensibilidades artísticas são historicamente construídas e próprias de cada grupo cultural;... é preciso não privilegiar uma determinada cultura hegemônica, mas criar oportunidades para que os alunos entrem em contato com as mais variadas formas de música, dança, teatro, artes visuais..., evitando preconceito com as produções mais populares ou étnicas.
O objetivo é socializar os bens culturais, familiarizar os alunos com a produção artística à qual não tem acesso pela mídia... a escola pode ampliar o repertório dos alunos com base nas experiências que eles já têm ao chegar à escola. (ALMEIDA, 2001, p.16-17)

O aspecto que Almeida (2001) levanta neste trecho em que defende que o professor deve iniciar o trabalho partindo de repertórios (experiências) que seus alunos já possuem ao chegar à escola é muito importante também ao pensarmos em contação de histórias e em educação musical, pois é preciso ter ciência de que nossos alunos cotidianamente vivem com experiências de contações de histórias e escuta/prática musical, seja em suas famílias ou entre amigos, todos contam ou ouvem “causos”, falam (narram) sobre acontecimentos do dia, contam piadas, cantam e ouvem músicas, enfim, este é um bom ponto de partida para um trabalho pedagógico que visa desenvolver a leitura, a oralidade, a ampliação de vocabulário e de repertório musical, o senso crítico, a percepção  e a própria criação de histórias e músicas.

Propor atividades artísticas que acompanhem a contação de histórias é muito importante pois

As artes fornecem um dos mais potentes sistemas simbólicos das culturas e auxiliam os alunos a criar formas únicas de pensamento. Em contato com as artes e ao realizarem atividades artísticas, os alunos aprendem muito mais do que pretendemos, extrapolando o que poderiam aprender no campo específico das artes. E, como o ser humano é um ser cultural, essa é a primeira razão para a presença das artes na educação escolar. (ALMEIDA,2001,p.32)


A ludicidade presente no ato de brincar, cantar, tocar, contar e ouvir histórias faz com que aprender torne-se algo prazeroso e não penoso. De acordo com Ghedini (apud Faria, 2002, p.202)”temos que deixar que as crianças nos envolvam, temos que lhes dar espaço para que expressem sua criatividade, ou ao menos reencontrar o que dela sobrou.”



Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Célia Maria de Castro. Concepções e práticas artísticas na Escola. In: FERREIRA, Sueli (ORG.) O Ensino das artes: construindo caminhos. Campinas/ SP: Papirus, 2001 

APPOLINÁRIO, Daniele Lenharo. PIRLIMPIMPIM- Por onde perpassa o imaginário na Educação Infantil? São Paulo: Faculdade de Educação da UNICAMP. Monografia de Graduação, 2000.

BARRETO, Cíntia Costa. A arte de contar histórias: uma reflexão sobre a experiência com crianças na faixa etária de 4 a 5 anos. Rio de Janeiro: Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Monografia de Graduação, 2003.

COELHO. Betty. Contar histórias: uma arte sem idade. São Paulo: Ática, 1996.

FARIA, Ana Lucia G. de. Educação pré-escolar e cultura: para uma pedagogia de educação infantil. Campinas/SP: Editora da Unicamp; São Paulo: Cortez, 2002.

FARIA, Ana Lucia G. de. Sons sem palavras e grafismos sem letras. In: FARIA, Ana Lúcia G. de e MELLO, Suely Amaral (orgs.). O mundo da escrita no universo da pequena infância. Campinas/SP: Autores Associados, 2005.

FIGO, Ana Carolina Franchini. Arte na educação infantil: a música em foco. Campinas/SP: Faculdade de Educação da UNICAMP. Monografia de Graduação, 2006.

HUIZINGA, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva e Editora da USP, 1971.












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